De Miguel Fernandez
Trabalha nessa casa faz coisa de três meses. Feriado prolongado, a patroa viajou para o sítio e levou o botijão de gás. Ficasse atenta que outro seria entregue hoje. Sozinha no apartamento, assistindo televisão, aguarda. Depois das três da tarde, a campainha a assusta, concentrada que está naquele programa de concursos. “
Sandra, pelo amor de Deus, não me abre a porta antes de ver se é alguém de confiança”. Olha primeiro pelo olho mágico. E pergunta depois “– Quem é?” mas já sabe que é o homem do gás, vê o botijão no seu ombro. Abre e, sem saber ainda que aquele mulato forte e sorridente é Julião, deixa-o entrar. Andando na sua frente, enquanto ele carrega o gás: – Cuidado com os móveis; Olhai o gato; Cuidado o vaso! – o leva até a cozinha. Julião deposita cuidadosamente a pesada carga onde ela lhe indica. Dobrando o pano que lhe protege a camisa domingueira, sem pinta de entregador; ‘vestido assim parece pronto para uma festa’.
– Feriado assim, a gente no tem muito trabalho, não. “Especial para cliente especial”. Ultima entrega hoje... Sabe? Tem festa, quermesse na igreja aqui do bairro. Festa é bom porque tem moça bonita pra gente namorar. E a moça aí, não quer se divertir um pouco?
Ela espera um segundo para responder: – Eu? Se deixar sozinha a casa, a patroa me mata!
– É pena. Vou ter que ir sozinho, então?
Uma sensação que ela não sabe entender, a confunde. (
Nem conheço o homem! Besteira, só). – Mas nem conheço você.
– Por isso mesmo. Existe lugar melhor que festa pras pessoas se conhecer melhor?
Ela olha fixamente para o ímã em forma de coração grudado na porta da geladeira, sem achar palavras.
– Será abusado demais, pedir um copo de água geladinha pra moça? – Nervosa, corre a abrir a porta da geladeira. Serve o copo de água gelada, depois de derramar metade fora. Enquanto ele bebe, ela seca o chão com um pano. Agachada a seus pés, de traseiro empinado, adivinha o que ele estaria pensando. Enrubesce e levanta imediatamente. Na área, lá fora, estende o pano para secar. Quando volta, ele esta sentado na cadeira, segura o copo vazio e um enorme e decidido sorriso cheio de dentes a espera. – Quem mandou sentar?
– Cansado de levantar esse botijão pesado. Não tem dó?
Esquiva-se das pernas longas e abertas dele, apóia-se na parede sem olhá-lo.
– A tal de quermesse, é longe? – quer saber, sabendo.
– Nada. Só um pulinho. Mais um pouquinho de água se não for incômodo.
Sem derramar uma gota, serve e entrega o copo suado. Os dedos dele roçam os seios ao recebê-lo. De propósito?
– Qual seu nome?
Silêncio e risinho; vermelha na face, pega o gato que acaba de chegar e rosna a seus pés.
– Pituco!
– Pituco? Isso é nome de mulher? – quer saber o distraído.
– Não, não. É do gato! – ri, ainda apoiada na parede, acaricia o animal.
– Se diverte a moça. Deixa eu ver esse gato. Conheço desses bicho.
Ao pegá-lo, sua mão roça os seios dela novamente. De propósito. Se retrai, encabulada. Vai dizer qualquer coisa, mas só fica olhando a mão grande acariciar o pêlo do bichano. Que se mostra inquieto tentando escapar do abraço.
– É siamês, que eu sei. Em geral esses bichos são orgulhosos e pouco carinhosos, né? Este aqui, pensa que é um lorde? Bicho metido a besta. E você, é carinhosa ou orgulhosa? E tem nome? O meu é Julião.
Ela sussurra – Sandra.– brincalhona tenta arrebatar o animal do colo dele. Com sorriso malandro, ele a detém interpondo o braço formando um arco sobre o gato sobressaltado. Sandra desiste do intento e fica na expectativa, nervosa. Como o gato, cada vez mais.
– Bonito nome. “Sandra”. Como a dona, diga-se. Bonita desse jeito, deve ter namorado, né não?
– Claro que tenho. (
Se tivesse, no estaria metida ali dentro num feriado assim)
Julião: – E quedê ele?
– A gente brigou. – Inventa.
– Bobo.
– Como assim?
– O namorado. Só pode ser bobo de brigar com uma garota assim.
“Sandra, você precisa namorar um pouco minha filha, sair por aí, conhecer um homem.
Tá esperando quê?”
– Você não sabe como que foi.
– E importa? Deixar moça linda presa dentro de casa, num dia como este... Vai vê, anda por aí, atrás de alguma saia. Aposto.
– Você não o conhece. Como pode saber o que ele tá fazendo? Metido, sô.
– E precisa conhecer? Basta olhar pr’ocê pra saber que ele não presta de brigar. Onde já se viu?
O elogio não deixa seus olhos parados em coisa alguma. (
Julião, bonito nome, como o dono).
– Tá sorrindo de quê? Posso saber?
– É nada. Liga não. Cê disse que a festa é pertinho mesmo? –como se não soubesse.
– É, sim.
– Se eu fosse... você me traria de volta? Que não conheço direito o bairro, sabe?
– E sou de abandonar moça bonita depois de festa?
– Então... per’aí. Vou me trocar já – Dando pulinhos travessos sai da cozinha e rápida desaparece nos fundos. Julião joga o gato com desprezo no chão; o som do televisor chama sua atenção pela primeira vez; observa indiferente a imagem, mexe nos botões, até encontrar e aumentar o volume. Satisfeito, sorri e se afasta lentamente em direção aos fundos. O gato o observa e, irrequieto, vai atrás.
Pequeno quarto de empregada; Sandra nua, cabeça enrolada na toalha, esfrega com força os cabelos molhados; não ouve a porta se abrindo e nem percebe Julião entrando e fechando a porta. Ela se vira e, ao vê-lo, sua boca aberta parece dizer: “Que foi?”
Ele não parece a mesma pessoa e, diferente, se achega até lhe arrancar a toalha das mãos. Os olhos negros de Sandra seguem o trajeto lento da toalha caindo sobre a cama. Demora alguns segundos para entender o que ele está querendo. Depois pensa: “Meu Deus, vai me violentar”. Quando Julião abre o zíper da calça, tem certeza. Mas a entrada súbita do gato e o pulo sobre a cama, assusta o entregador e, na distração de segundos, oportunista, Sandra sai correndo do quarto; entra e atravessa a sala, abre a porta e sai do apartamento. No meio do corredor, para; se vê nua; hesita:
*porta do elevador;
*porta do apartamento da vizinha, Francisca;
*escadas;
*voltar por onde saiu;
*gritar como louca;
Sandra indecisa, cobre os seios com as mãos, gira sobre seus pés e, ao virar-se, vê:
*Julião na porta, vermelho de ódio, que dá um passo em sua direção;
*o gato detrás dele...
*súbito, o animal avança em direção de Sandra por entre as pernas do homem;
* o entrevero em seus pés faz o homem se desequilibrar;
*na peleja das pernas com o corpo do bicho, o homem perde e cai; rolando, mergulha na abertura da escada e por ela, Julião desaparece muitos degraus abaixo, rolando como um botijão de gás;
*o gato, amedrontado, volta correndo à casa;
*atrás dele, Sandra, que tranca a porta, e, apoiada nela recupera o fôlego;
*escondido debaixo do sofá, o gato a observa.
O som alto do televisor abafa o pulsar sobressaltado do coração de ambos.
Sandra procura, chama o gato.
Este assoma a cabeça.
Ela sorri e disse:
– Vem cá meu salvador! Meu Lorde!
Ele obedece e a moça o carrega no colo, apertando-o entre os seios nus: o gato ronrona satisfeito com o que ouve dimanar deles...
– Fim – disse Graciliano, dobrando o papel que segurava nas mãos e virou-se para seu peludo interlocutor ao lado que, sentado sobre a mesa, ouvira a história, pacientemente calado.
O siamês desceu lentamente, deu uma volta pelo chão, espreguiçou-se e, sentando-se sobre as patas traseiras, entre uma lambida e outra de uma das dianteiras, disse:
– Todas essas palavras para contar o que eu te disse em dez?
*...
E o velho narrador ficou sem palavras.