Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Os primeiros dez anos do euro







João Paulo Mesquita Simões


Em 1 de Janeiro de 2009 passam dez anos sobre um dos momentos cimeiros do projecto europeu e da história contemporânea –a criação do euro.
Com efeito, em 1 de Janeiro de 1999 tinha início a chamada terceira fase da União Económica e Monetária, prevista no Tratado da União Europeia, com a introdução do euro e a condução de uma política monetária e cambial únicas, da responsabilidade do Eurosistema (formado pelo Banco Central Europeu e pelos bancos centrais nacionais dos Estados-Membros participantes na área do euro, nos quais se inclui o Banco de Portugal).
Naquela data, Portugal e mais dez Estados-Membros – Bélgica, Alemanha, Irlanda, Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Áustria e Finlândia – preenchiam as condições para adoptar o euro. Actualmente, a área do euro integra dezasseis países, após a adesão da Grécia (1 de Janeiro de 2001), Eslovénia (1 de Janeiro de 2007), Chipre e Malta (1 de Janeiro de 2008) e Eslováquia (1 de Janeiro de 2009). Para a grande maioria dos cidadãos, no entanto, o euro apenas se tornaria visível em 1 de Janeiro de 2002, com a entrada em circulação de moedas e notas de euro.
O euro representa um decisivo passo no longo processo de integração europeia, desde a instituição, em 1957, da Comunidade Económica Europeia, criando um quadro de estabilidade e de progresso para os cidadãos e para as economias dos países participantes. Cerca de 320 milhões de cidadãos da área do euro comprovam, no dia-a-dia, as vantagens da utilização de uma moeda que também se tornou referência internacional.
Ao associar-se à celebração dos dez anos do euro enquanto símbolo da identidade europeia e factor de integração e de desenvolvimento, a presente emissão filatélica celebra igualmente o esforço conjunto dos países da União Europeia em prol de um projecto determinado a garantir a paz e a prosperidade do continente europeu.

Dados Técnicos
Emissão constituída por dois selos de 0.47€ e 1.00€, desenhados por João Machado em papel de 100 g/m2. O formato é de 40 x 30.6 mm e picotado 13 x “Cruz de Cristo”. Impressor: Cartor

(In: http://www2.ctt.pt/femce/jsp/app/public/category_info.jspx?shopCode=LOJV&categoryCode=8061

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

O porquê de ‘Lorde’ (versão A)

De Miguel Fernandez



Trabalha nessa casa faz coisa de três meses. Feriado prolongado, a patroa viajou para o sítio e levou o botijão de gás. Ficasse atenta que outro seria entregue hoje. Sozinha no apartamento, assistindo televisão, aguarda. Depois das três da tarde, a campainha a assusta, concentrada que está naquele programa de concursos. “Sandra, pelo amor de Deus, não me abre a porta antes de ver se é alguém de confiança”. Olha primeiro pelo olho mágico. E pergunta depois “– Quem é?” mas já sabe que é o homem do gás, vê o botijão no seu ombro. Abre e, sem saber ainda que aquele mulato forte e sorridente é Julião, deixa-o entrar. Andando na sua frente, enquanto ele carrega o gás: – Cuidado com os móveis; Olhai o gato; Cuidado o vaso! – o leva até a cozinha. Julião deposita cuidadosamente a pesada carga onde ela lhe indica. Dobrando o pano que lhe protege a camisa domingueira, sem pinta de entregador; ‘vestido assim parece pronto para uma festa’.
– Feriado assim, a gente no tem muito trabalho, não. “Especial para cliente especial”. Ultima entrega hoje... Sabe? Tem festa, quermesse na igreja aqui do bairro. Festa é bom porque tem moça bonita pra gente namorar. E a moça aí, não quer se divertir um pouco?
Ela espera um segundo para responder: – Eu? Se deixar sozinha a casa, a patroa me mata!
– É pena. Vou ter que ir sozinho, então?
Uma sensação que ela não sabe entender, a confunde. (Nem conheço o homem! Besteira, só). – Mas nem conheço você.
– Por isso mesmo. Existe lugar melhor que festa pras pessoas se conhecer melhor?
Ela olha fixamente para o ímã em forma de coração grudado na porta da geladeira, sem achar palavras.
– Será abusado demais, pedir um copo de água geladinha pra moça? – Nervosa, corre a abrir a porta da geladeira. Serve o copo de água gelada, depois de derramar metade fora. Enquanto ele bebe, ela seca o chão com um pano. Agachada a seus pés, de traseiro empinado, adivinha o que ele estaria pensando. Enrubesce e levanta imediatamente. Na área, lá fora, estende o pano para secar. Quando volta, ele esta sentado na cadeira, segura o copo vazio e um enorme e decidido sorriso cheio de dentes a espera. – Quem mandou sentar?
– Cansado de levantar esse botijão pesado. Não tem dó?
Esquiva-se das pernas longas e abertas dele, apóia-se na parede sem olhá-lo.
– A tal de quermesse, é longe? – quer saber, sabendo.
– Nada. Só um pulinho. Mais um pouquinho de água se não for incômodo.
Sem derramar uma gota, serve e entrega o copo suado. Os dedos dele roçam os seios ao recebê-lo. De propósito?
– Qual seu nome?
Silêncio e risinho; vermelha na face, pega o gato que acaba de chegar e rosna a seus pés.
– Pituco!
– Pituco? Isso é nome de mulher? – quer saber o distraído.
– Não, não. É do gato! – ri, ainda apoiada na parede, acaricia o animal.
– Se diverte a moça. Deixa eu ver esse gato. Conheço desses bicho.
Ao pegá-lo, sua mão roça os seios dela novamente. De propósito. Se retrai, encabulada. Vai dizer qualquer coisa, mas só fica olhando a mão grande acariciar o pêlo do bichano. Que se mostra inquieto tentando escapar do abraço.
– É siamês, que eu sei. Em geral esses bichos são orgulhosos e pouco carinhosos, né? Este aqui, pensa que é um lorde? Bicho metido a besta. E você, é carinhosa ou orgulhosa? E tem nome? O meu é Julião.
Ela sussurra – Sandra.– brincalhona tenta arrebatar o animal do colo dele. Com sorriso malandro, ele a detém interpondo o braço formando um arco sobre o gato sobressaltado. Sandra desiste do intento e fica na expectativa, nervosa. Como o gato, cada vez mais.
– Bonito nome. “Sandra”. Como a dona, diga-se. Bonita desse jeito, deve ter namorado, né não?
– Claro que tenho. (Se tivesse, no estaria metida ali dentro num feriado assim)
Julião: – E quedê ele?
– A gente brigou. – Inventa.
– Bobo.
– Como assim?
– O namorado. Só pode ser bobo de brigar com uma garota assim.
“Sandra, você precisa namorar um pouco minha filha, sair por aí, conhecer um homem.
Tá esperando quê?”
– Você não sabe como que foi.
– E importa? Deixar moça linda presa dentro de casa, num dia como este... Vai vê, anda por aí, atrás de alguma saia. Aposto.
– Você não o conhece. Como pode saber o que ele tá fazendo? Metido, sô.
– E precisa conhecer? Basta olhar pr’ocê pra saber que ele não presta de brigar. Onde já se viu?
O elogio não deixa seus olhos parados em coisa alguma. (Julião, bonito nome, como o dono).
– Tá sorrindo de quê? Posso saber?
– É nada. Liga não. Cê disse que a festa é pertinho mesmo? –como se não soubesse.
– É, sim.
– Se eu fosse... você me traria de volta? Que não conheço direito o bairro, sabe?
– E sou de abandonar moça bonita depois de festa?
– Então... per’aí. Vou me trocar já – Dando pulinhos travessos sai da cozinha e rápida desaparece nos fundos. Julião joga o gato com desprezo no chão; o som do televisor chama sua atenção pela primeira vez; observa indiferente a imagem, mexe nos botões, até encontrar e aumentar o volume. Satisfeito, sorri e se afasta lentamente em direção aos fundos. O gato o observa e, irrequieto, vai atrás.
Pequeno quarto de empregada; Sandra nua, cabeça enrolada na toalha, esfrega com força os cabelos molhados; não ouve a porta se abrindo e nem percebe Julião entrando e fechando a porta. Ela se vira e, ao vê-lo, sua boca aberta parece dizer: “Que foi?”
Ele não parece a mesma pessoa e, diferente, se achega até lhe arrancar a toalha das mãos. Os olhos negros de Sandra seguem o trajeto lento da toalha caindo sobre a cama. Demora alguns segundos para entender o que ele está querendo. Depois pensa: “Meu Deus, vai me violentar”. Quando Julião abre o zíper da calça, tem certeza. Mas a entrada súbita do gato e o pulo sobre a cama, assusta o entregador e, na distração de segundos, oportunista, Sandra sai correndo do quarto; entra e atravessa a sala, abre a porta e sai do apartamento. No meio do corredor, para; se vê nua; hesita:
*porta do elevador;
*porta do apartamento da vizinha, Francisca;
*escadas;
*voltar por onde saiu;
*gritar como louca;
Sandra indecisa, cobre os seios com as mãos, gira sobre seus pés e, ao virar-se, vê:
*Julião na porta, vermelho de ódio, que dá um passo em sua direção;
*o gato detrás dele...
*súbito, o animal avança em direção de Sandra por entre as pernas do homem;
* o entrevero em seus pés faz o homem se desequilibrar;
*na peleja das pernas com o corpo do bicho, o homem perde e cai; rolando, mergulha na abertura da escada e por ela, Julião desaparece muitos degraus abaixo, rolando como um botijão de gás;
*o gato, amedrontado, volta correndo à casa;
*atrás dele, Sandra, que tranca a porta, e, apoiada nela recupera o fôlego;
*escondido debaixo do sofá, o gato a observa.
O som alto do televisor abafa o pulsar sobressaltado do coração de ambos.
Sandra procura, chama o gato.
Este assoma a cabeça.
Ela sorri e disse:
– Vem cá meu salvador! Meu Lorde!
Ele obedece e a moça o carrega no colo, apertando-o entre os seios nus: o gato ronrona satisfeito com o que ouve dimanar deles...
– Fim – disse Graciliano, dobrando o papel que segurava nas mãos e virou-se para seu peludo interlocutor ao lado que, sentado sobre a mesa, ouvira a história, pacientemente calado.
O siamês desceu lentamente, deu uma volta pelo chão, espreguiçou-se e, sentando-se sobre as patas traseiras, entre uma lambida e outra de uma das dianteiras, disse:
– Todas essas palavras para contar o que eu te disse em dez?

*...

E o velho narrador ficou sem palavras.

Domingo, 12 de Julho de 2009

ESSÊNCIA

Por Ed Santos

Pegando carona na infelicidade da falta que Michael Jackson nos fará à partir de agora, outro dia me perguntaram qual meu estilo musical favorito. Por mais previsível que parecesse eu não consegui responder, e o pior de tudo foi perceber que no meu caso, não há preferência.
Nasci e passei toda minha infância e adolescência na periferia e o acesso à música naquela época era bastante restrito. Só fui ouvir rádio FM quando tinha uns 13, 14 anos.
Meus pais gostavam de rock and roll, twist, etc., mas lá em casa tinha um LP de vinil, uma coletânea de artistas cantores brasileiros, que me conduziram a conhecer o que depois eu chamaria de MPB. Tinha “Estácio, Holly Estácio”, “Esse Cara” e uma que não tocou muito, “Cala Boca Zé Bedeu”, de Sérgio Sampaio.
No final dos 70, passei a ouvir mais o tal Receiver Fm e comecei a freqüentar as domingueiras de um salão de bailes perto de casa. Lá conhecei a mais pura essência da Black Music. O suingue, o balanço, aquilo me deixava em transe.
Mais tarde, ouvi rock, muito rock, começando pelo nacional era o boom dos 80’s. Camisa de Vênus, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas, Titãs e Legião. Época de descobertas...
Depois, veio o desejo de conhecer mais a nossa MPB. Analisar as letras, copiá-las num caderno e ouvir Caetano até decorar tudo, e tentar entender o que o Tom quis dizer em “Águas de Março”. Alguém já ouviu falar em “febre terçã”?
Como se pode ver, essa é minha preferência musical. Uma identidade confusa e indefinida, e totalmente (ainda bem!), sem rótulos. Hoje levo no meu Ipod uma miscelânea de estilos e ritmos, de Ed Mota à Sex Pistols. Descobri que tenho essência Black, mas alma Punk.

Sábado, 11 de Julho de 2009

TUDO DE MADRUGADA

Gustavo do Carmo



O jornal do fim de noite de um famoso canal de televisão exibia uma matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Um dos entrevistados, freqüentador de um supermercado que funcionava durante 24 horas, era Dionísio, um jovem rapaz, na faixa dos vinte e cinco anos. Ele disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. No final da matéria voltou para acrescentar que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo.

De fato, Dionísio só tinha tempo para resolver os seus problemas de madrugada. Mas não trabalhava exatamente o dia inteiro. Jornalista formado, fazia clipagem, ou seja, buscava o que saía na imprensa sobre o cliente da produtora e criava um álbum com as matérias publicadas. Seu turno era das quatro às dez da manhã. Deixava o escritório na Tijuca, andava uns dez minutos e pegava o ônibus. Chegava ao apartamento, em Copacabana, em pouco menos de uma hora, dependendo do trânsito. Por volta do meio-dia ia almoçar (ou jantar) e, depois, finalmente dormia. Acordava às oito da noite. Fazia o seu desjejum enquanto muita gente jantava. Começava o seu dia quando os vizinhos chegavam do trabalho, exaustos, o que era percebido pelo movimento de entrada na garagem do prédio.

Fazia os trabalhos que levava para casa. Duas horas depois saía à rua. Passava no caixa eletrônico do banco e em seguida no jornaleiro, onde comprava as primeiras edições dos cinco principais informativos e também das duas publicações esportivas. Era mais pelo trabalho, ao qual se dedicava muito, do que para o lazer. Após algumas voltas no calçadão da praia, entrava na loja de conveniência e fazia um lanche que servia de almoço para não mexer na cozinha de madrugada e acordar os vizinhos do apartamento em frente. Finalmente ia ao supermercado e fazia as compras da semana.

Não eram todos os dias que Dionísio visitava o supermercado. Somente às quintas-feiras. As segundas eram reservadas para a academia, as terças para o dentista ou o tratamento de pele, na quarta tinha novamente a academia e às sextas ele ficava em casa por causa do movimento noturno no bairro. No sábado à noite, viajava para Conceição de Macabu, onde nasceu, foi criado e ainda moram os pais. Voltava para o Rio segunda-feira de manhã.

Acostumado com a rotina na capital, dormia o dia inteiro e só acordava à noite na cidade pequena, onde tudo fechava cedo. Os bares e restaurantes funcionavam até, no máximo, às duas horas da manhã. Dionísio não gostava de beber e os restaurantes eram muito fracos. Ficava perambulando pela casa durante cerca de quinze horas. Angustiava-se. Morria de saudades dos pais, mas não via a hora de voltar ao apartamento alugado no Rio de Janeiro, ao seu trabalho de clipping e às atividades comerciais da madrugada.

Dionísio achou o emprego na internet. Tinha o sonho de morar e fazer sua vida no Rio, mas precisava trabalhar. Chamado para a entrevista, passou e foi aprovado. Fizeram uma festa em casa. No entanto, os pais ficaram tristes porque o filho precisou se mudar e eles não podiam ir. A mãe, costureira, tinha os seus clientes e o pai tinha um bazar que não podia ficar abandonado. Ainda assim, seria bom para Dionísio morar sozinho e ganhar experiência de vida. O pai ainda ajudou o filho a alugar um apartamento de dois quartos na Tijuca, perto do trabalho.

Na empresa, o primeiro material que reuniu foi muito elogiado por um cliente, ex-participante de reality-show. Depois outra aprovação de uma petrolífera multinacional. A mesma opinião teve uma ONG de educação. Dionísio passou a ser mais procurado. Com isso, a sua responsabilidade aumentou. Pediu e ganhou um aumento. Com ele, depois de alguns meses, entregou o apartamento na Tijuca e alugou outro na Rua Constante Ramos, em Copacabana, também de dois quartos, realizando outro antigo sonho: morar perto da praia.

Nos primeiros dias de trabalho, Dionísio tentou manter uma vida normal. Mas chegava em casa tão cansado que acabava dormindo e só acordando às oito da noite. Aí notou que precisava fazer o trabalho que trouxera e se viu sem tempo para sair na rua e fazer atividades básicas como ir ao supermercado, à banca de jornal, ao dentista, além de aproveitar a cidade do Rio de Janeiro.

Um dia, viu no jornal da televisão uma primeira matéria sobre os serviços dia e noite. Se interessou tanto que decidiu procurá-los. Começou freqüentando uma loja de conveniência, ainda na Tijuca. Depois procurou um dentista. Marcou a primeira consulta para uma da manhã. Já na terceira, o profissional desistiu porque foi assaltado ao voltar pra casa e parou de trabalhar de madrugada. Dionísio teve que procurar outro para o seu horário incomum. Só achou em Copacabana. Quando o supermercado que freqüentava na zona norte também deixou de atender à noite, Dionísio decidiu se mudar. Já estava viciado em resolver seus problemas urbanos de madrugada. Tanto que recusou a oferta da dona da empresa de transferir o seu expediente para o horário comercial.

Um dia ele foi dispensado. Não soube se foi por corte no pessoal ou a diretora percebeu alguma coisa errada nele. Apesar de dedicado, Dionísio teria deixado de incluir uma matéria importante sobre um cliente. Uns disseram que Dionísio já começara a trabalhar demais. Estaria tão ansioso para aproveitar as atividades noturnas do comércio que já não dormia mais. Uma moça teria visto seus olhos vermelhos e logo achou que era por causa de drogas. Um colega o encontrou em uma drogaria de plantão, às três da madrugada, na Tijuca, perto do escritório. Houve várias versões sobre a demissão de Dionísio. O fato é que o rapaz não se importou. Nem quis voltar para Macabu. Preferiu continuar em Copacabana, mesmo.

Por três meses cumpriu o ritual ao qual estava acostumado a fazer. Aparentemente estava tudo normal. Era como se Dionísio ainda trabalhasse na produtora de clipping. A partir do quarto mês, o pai não quis mais pagar o aluguel. Era uma forma de pressioná-lo a voltar para o interior. Depois de alguma resistência, acabou cedendo. Entregou o apartamento no Rio de Janeiro e voltou para a cidade natal.

Tentou manter a mesma rotina de quando era clipista na Tijuca. Queria comprar os sete jornais, as duas revistas, ir à academia, ao supermercado, ao dentista e à esteticista. Não conseguiu porque tudo isso só funcionava durante o dia, sob a luz do sol, que Dionísio já rejeitava. Parecia um vampiro que temia virar pó com a claridade. Já andava de óculos escuros pela casa fechada com cortinas, assustando os pais e as freguesas da mãe. Ficava o dia inteiro sem dormir e só saía na rua à noite, na cidade já deserta. Vivia na farmácia de plantão, comprando estimulantes sem necessidade, virando assunto na cidade, envergonhando os pais.

O pai perdeu a paciência e tentou impor um limite. Ou Dionísio voltava a trabalhar ou seria expulso de casa porque não ia sustentar vagabundo. Logo se apiedou e ofereceu o bazar para ele trabalhar. Dionísio não tinha vergonha da fonte de sustento da família, mas quando adolescente só queria trabalhar como jornalista. Agora, já maduro, até aceitou ajudar o pai. Desde que trabalhasse de madrugada.

Como um empresário visionário, propôs que o bazar funcionasse 24 horas e ele tomaria conta. Seu Osmar, pai de Dionísio, recusou imediatamente. Disse que não ia dar lucro e que era perigoso, pois a farmácia já fora assaltada. Dionísio, então, pediu à mãe que lhe ensinasse a costurar (algo que ele odiava quando criança) e propôs adiantar as encomendas enquanto ela dormia. Dona Maria Lúcia estranhou, mas acabou aceitando.

Dionísio costurou por algumas semanas. Estava indo bem. Ganhava até elogios das freguesas da mãe. Eis que o pai voltou a procurá-lo para dizer que lhe tinha arranjado um emprego de vigia noturno. O rapaz aceitou na hora, antes de Seu Osmar perguntar se ele tinha certeza, pois era um emprego perigoso.

E lá foi Dionísio trabalhar como vigia da farmácia. Ganhou até uma arma, sem bala, pois servia apenas para assustar os ladrões. O turno de Dionísio era de meia-noite às seis da manhã. A farmácia ficava ao lado da sua casa.

Quando chegava, tomava banho antes do café da manhã que preparava para ele e a mãe. Já de óculos escuros, assistia à televisão e ajudava a mãe a fazer o almoço e também a costurar. Às quatro da tarde começava a fazer seu clipping... imaginário.

Não comprava os sete jornais faz tempo. Inventava tudo. Os pais começaram a ficar preocupados. Principalmente quando Dionísio começou a atender telefonemas inexistentes de clientes virtuais. Não os da internet, que ele tentava conseguir realmente, mas não tinha sucesso. Eram clientes criados por ele mesmo. Já começava a falar sozinho, organizando reuniões fantasiosas.

Uma noite, o dono da farmácia foi procurar o pai de Dionísio em sua casa. Ele não havia comparecido ao trabalho. Os pais e o patrão, amigo da família, o procuraram pela casa toda. Dona Maria Lúcia começou a se desesperar. Ainda mais quando o pai achou um bilhete curto e seco deixado pelo filho: “Fui para o Rio de Janeiro.” A primeira coisa que Seu Osmar fez foi procurar o revólver do dono da farmácia. Não estava lá. A sua pistola particular também não.

Dionísio chegou a Copacabana por volta das dez da noite. Entrou no supermercado que freqüentava quando morava no Rio. Ouviu pelo alto-falante o locutor anunciar que o estabelecimento estava encerrando as atividades do dia. O ex-clipista estranhou.

Perguntou a um segurança porque eles estavam fechando se o supermercado funcionava 24 horas por dia. O vigilante, um moreno forte e alto, disse que eles pararam de atender dia e noite depois de um assalto que sofreram. Dionísio se indignou. Sacou as duas armas que trouxe do interior e o rendeu.

Mesmo em desvantagem física, Dionísio obrigou o segurança a fechar as portas do supermercado e manteve todos os funcionários e fregueses como reféns. Gritando muito, completamente alterado, exigiu a presença de repórteres da mais famosa emissora de televisão. Ameaçou explodir o supermercado se alguém chamasse a polícia antes dele terminar o seu plano. Alguns fregueses cochichavam que Dionísio estava drogado, por causa dos seus olhos vermelhos. Mas ele não estava. Nem tinha tomado o estimulante. O que o entorpecia era a loucura mesmo.

Duas horas depois apareceu a equipe da imprensa. Uma repórter morena e bonita, de terninho amarelo, acompanhada do cinegrafista, um homem forte e moreno como o segurança rendido por Dionísio. Este autorizou a entrada apenas dos dois jornalistas e impôs as condições para liberar os fregueses e os funcionários do supermercado: produzir uma matéria sobre os serviços 24 horas na cidade do Rio de Janeiro. Assustados, os repórteres concordaram imediatamente. E começaram a entrevistar os freqüentadores, deveriam mostrar que estava tudo bem. Que era apenas uma pauta de rotina.

Dionísio atuou como o produtor da matéria desejada. Selecionou algumas pessoas. Escolheu um casal, um homem de cabelos grisalhos, o gerente e uma das caixas do supermercado para serem entrevistados. Ele mesmo também fez parte da matéria. Exigiu uma maquiagem para disfarçar os olhos vermelhos.

Dionísio disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. Depois de uma pausa na gravação, acrescentou que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo. Recomendou que este depoimento encerraria a matéria.


Satisfeito, Dionísio libertou os funcionários e os freqüentadores do supermercado. Todos estavam livres após quatro horas de tensão. Com exceção dos dois jornalistas, que continuaram com as duas pistolas apontadas por Dionísio. O clipista exigiu continuar a matéria na academia e, depois, nos consultórios noturnos do dentista e da esteticista.

Não deu tempo. No caminho para o carro da reportagem, Dionísio vacilou ao espirrar. Foi dominado pelo cinegrafista e surpreendido pela polícia, que o prendeu e o levou para a casa de custódia, sob a acusação de seqüestro, porte ilegal de armas e perturbação da ordem pública.

Condenado, foi cumprir a pena no manicômio judiciário. Lá, assistiu ao telejornal do fim de noite com a matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Dionísio era a estrela principal. Depois, começou a fazer o seu próprio clipping com as matérias verdadeiras sobre o seqüestro no supermercado publicadas na imprensa.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

ESCREVER UMA CRÔNICA

Por Dudu Oliva

Precisa escrever simples, mas não simplório. Colocar uma pitada de ironia e humor dá uma diferença boa no texto. Tem que saber do que está falando, entretanto, não há necessidade de se aprofundar em pensamentos complexos.

Caro cronista, seja coerente e suave. Uma boa crônica deve fazer com que o leitor esqueça à leitura e viaje com o que está relatando. O leitor deve se desapontar, porque acabou de ler o texto. A crônica é uma narrativa livre, não há necessidade de ser comprometido com a realidade; se é para deixar o texto mais agradável, por que não aumentar um pouco as peripécias.

Quem pretende representar a realidade, desculpe a franqueza, é um inocente que chega às raias da tolice; pois o que se vê mais por aí são correntes ideológicas ou pontos de vista.


Lógico que para ser um cronista precisa escrever bem, mas não use palavras que ninguém vai entender. Agora, não gosta de se expressar assim, escreva artigos acadêmicos para Academia Brasileira de letras. Contribuirá bastante para o conhecimento. Todas as formas de conhecimentos são fundamentais para a construção de um mundo melhor.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

1937 – 4º Centenário da Morte de Gil Vicente

Por
João Paulo Mesquita Simões









A personalidade de Gil Vicente, ainda não foi bem identificada. Isto porque, há um ourives também chamado Gil Vicente, cuja vida está documentada até 1517, autor da custódia de Belém (a obra-prima da ourivesaria portuguesa quinhentista) que realizou importantes trabalhos para a corte. O principal argumento a favor da identificação do poeta com o ourives é um apontamento que alguém escreveu no século XVI à margem de um documento nomeando aquele ourives Mestre da Balança da Casa da Moeda de Lisboa. Diz o apontamernto: Gil Vicente, trovador, Mestre da Balança.

O que se sabe de Gil Vicente, reduz-se ao seguinte: Nasceu à roda de 1465, encenou a sua primeira peça em 1502, foi colaborador do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Desempenhou na corte a importante função de organizar as festas palacianas, como por exemplo, da recepção em Lisboa à terceira mulher de D. Manuel.

Publicou Gil Vicente ainda em vida, alguns dos seus autos, em folhetos de cordel que depois foram reeditados. Destas edições, algumas foram proibidas pela inquisição. Conhecem-se apenas o Auto da Barca do Inferno, a Faça de Inês Pereira, o D. Duardos e o Pranto da Maria Parda.

Estes autos tinham por objectivo satirizar a nossa sociedade. Foi um grande poeta, Gil Vicente. A sua obra é vasta e seria impossível relatá-la toda aqui.

Parte deste texto, foi baseado na História da Literatura Portuguesa, 12ª edição da Porto Editora de 1982.

Pensa-se que o poeta faleceu em fins de 1536, pouco se sabendo da sua pessoa.

Relativamente à Filatelia, esta emissão de dois selos de $40 castanho escuro e 1$00 carmim, foram desenhados por Raquel Roque Gameiro Ottolini e gravura de Arnaldo Fragoso.

Impressos na Casa da Moeda em folhas de 100 selos, em papel de porcelana denteado 11 ½, circularam de 29 de Julho de 1937 até 30 de Setembro de 1945.




Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Epilepsia: doença enviada pelos bons deuses

por Miguel Fernandez








M
as, paulatinamente, os intervalos daqueles chiliques foram encurtando e o que antes se manifestava por meio de triviais alterações de comportamento – como perder por instantes a noção de quanto o cercava ou responder absurdos a perguntas banais – provocando zombarias entre fregueses e agregados –, transformou-se na ênfase de um generalizado estremecimento corporal no meio de uma noite que despertou aterrorizada a tia, deitada a seu lado. Esta senhora, agreste iletrada e nada afeita em complicados, bastando-lhe saber que toda massa de pão resulta da mistura de farinha de trigo, água e fermento e o lucro de sua venda chegar a mais de 100% do investido, na essência de todo e qualquer fenômeno inexplicável, haverá, para tudo elucidar indiscutivelmente, o misticismo; destarte, o primeiro consultado a descobrir o cerne, foi o padre domingueiro que, numa breve observação, afiançou tratar-se de artimanhas do demônio. Porém, devido à continuidade dos acessos convulsivos, o segundo consultado – a muito rogo e custo, não em reis, mas em convicção –, foi um médico que após sucinta análise, diagnosticou a mesma doença acolhida por Martinho Lutero – com tamanha maldição, que a somou ao inventário das pestes rogadas à Igreja Católica, entre sífilis, escorbuto, lepra e carbúnculo -, com o insinuante codinome latino de morbus demoniacus: epilepsia.
Quiçá por menos mórbido ou demasiado antigo, o epíteto dos egípcios fora sepultado com suas múmias: Nesejet: doença enviada pelos bons deuses. No entanto, a versão escolhida e difundida aos quatro ventos pela santíssima e supina ignorância, foi a estigmatizada por Lúcifer, Belzebu, Lusbel, Satã ou Asmodeu, entre os cristãos. Exu, Leba e Cariapemba, entre os orixás; Jurupari, Anhangá e Caipora, para os ameríndios.
E para D. Adelaide, o diagnóstico clínico não passava da opinião de quem não entende de possessões, e pôs um fim a suas considerações em compartilhar leito e volição, provocando o distanciamento, que se alargou até um habitáculo adaptado às pressas nos fundos do sobrado, onde o jovem instalou-se de cama propriu, a ocultar dos serventes e clientes da padaria, as possessões satânicas que ela apostava seu sobrinho ser receptor. Mesmo submetendo-se às subsequentes e aterradoras mandingas mandadas realizar pela viúva galega, os acessos continuaram incólumes às feitiçarias e benzas. Acabando por abrir mão da empreitada que o exorcizaria devolvendo-o à sua cama e ao balcão da padaria, D. Adelaide, derrotada pelo suppositum posseiro, substituiu o vazio do leito pela renúncia.
Encafofado no meio de esquecidas plataformas de madeira e formas de pães, repletas de aranhas nos seus recônditos, engolfado entre sacos de farinha, passou-se o trajeto da puberdade durante o qual, com pavor de ser enviado para alguma prisão, asilo ou lazareto, destino de muitos dos portadores da mesma síndrome, esquivou-se de situações que pudessem precipitar um ataque em público. Como decorrência, seu interesse em descobrir origem e cura tornou-se impulso cada vez mais persistente e aflitivo...
____________________
() Do capítulo: "No resumo dos antecedentes hereditários, gestacionais
e obstétricos do Dr. Fernando Garcia",
extraído do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Dalton W. Reis